Novas caras do humor

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Novas caras do humor

Aarhon Pinheiro e Estevam Nabote se conheceram em um concurso para comediantes no Rio e falam das dificuldades e do sucesso de estarem no palco

O exercício de atuar em parceria com a diversão, cativando o riso e proporcionando momentos de alegria para a plateia é privilégio para poucos, já que a capacidade de improviso e criação é um talento que vem de berço. Mas

embora não exista escola de humor ou faculdade de piadas, a cada ano cresce o número de jovens que ingressam no universo da comédia e despontam nos palcos de forma promissora. 

Cheios de personalidade e perspicácia, essa nova geração se inspira em acontecimentos corriqueiros do dia a dia para criar esquetes originais, e usa a versatilidade como estratégia para fugir do humor genérico e ganhar o público. Enquanto uns sobem ao palco e apresentam uma entonação mais séria ou esboçam indignação na hora de relatar um fato, outros apostam na espontaneidade e na narrativa descontraída. Essas linhas distintas comprovam que no humor, não há forma certa ou errada de contar uma piada, o que sustenta a história é a postura corporal do comediante e a qualidade textual do roteiro.

No cenário atual, o stand up comedy é o formato que está em alta no mercado e que mais revela talentos. Foi através desse modelo de apresentação que nomes como Fábio Porchat, Danilo Gentilli, Marcelo Marrom, Fernando Caruso e Rafinha Bastos surgiram no teatro e ganharam espaço na TV. 

“Este é o gênero da comédia que se sustenta pela observação. O artista precisa ter astúcia para captar situações banais que rendem histórias cômicas. Às vezes, o simples modo de uma pessoa agir, falar e andar, pode inspirar o humorista a montar um roteiro incluindo elementos fictícios. O brasileiro é um povo que tem malícia para analisar um comportamento e tornar aquele aspecto caricato por meio da postura corporal e das expressões”, afirma o humorista Estevam Nabote, 20 anos, que entrou no universo da comédia há cinco anos após vencer um concurso de melhor imitação na escola.

Estevam decidiu alçar voos mais altos e se inscreveu no concurso promovido pelo grupo Comédia em Pé. Bastou subir no palco e fazer a sátira de um locutor de carro de anúncios para levar o prêmio. Ele também decidiu enviar uma mensagem para o comediante Maurício Manfrini, intérprete do personagem Paulinho Gogó, pedindo uma oportunidade. E, para sua surpresa, Manfrini respondeu disposto a ajudá-lo. Hoje, o jovem é o responsável por abrir as apresentações de Paulinho Gogó no Rio de Janeiro, e já coleciona experiências.

Para o comediante e produtor Bruno Nogueira, um bom profissional pode ser definido em três palavras: talento, carisma e humildade

“Recentemente, fiz um stand up para uma plateia de 1.600 pessoas em São Gonçalo. Posso dizer que foi um momento marcante da minha carreira. O roteiro foi totalmente autoral e, apesar do nervosismo, não há como explicar a satisfação que senti ao ver o público aplaudindo meu trabalho”, conta o comediante.

Nesta trajetória, Estevam conheceu o também humorista Aarhon Pinheiro, 25, durante o concurso Open Mic Comedy, que aconteceu na Lapa. O evento, que reúne diversos artistas, é a porta de entrada para muitos jovens que estão iniciando carreira no humor e buscam experiência. 

Segundo Aarhon, o maior desafio dos iniciantes não é subir no palco mas, sim, chegar até ele. Para alcançar o tão sonhado espaço neste universo, ele já fez stand ups em escolas, bares, restaurantes e reconhece que, em algumas ocasiões, o público não foi tão receptivo, porém, afirma que as críticas não o desanimaram.

“Passei por diversas situações hilárias e trágicas também, inclusive, já fui vaiado. As dificuldades são diárias, porque quando você ainda não é conhecido, existe uma resistência grande por parte do público e também dos estabelecimentos que, muitas vezes, resistem em nos dar uma oportunidade de mostrarmos nosso trabalho. Mas uma das vantagens do meio humorístico é que você tem a chance de trabalhar ao lado dos seus ídolos e aprende com quem tem conteúdo para ensinar”, diz Aarhon, que atualmente participa dos programas “Trair e Coçar” e “Força na Peruca”, ambos do Multishow.

Estevam e Aarhon dizem que a melhor parte do trabalho é quando ouvem, no fim da apresentação, a frase: “Muito obrigada, você mudou o meu dia”. Para eles, a missão do verdadeiro humorista é viver a serviço da alegria alheia em vez de esperar que as cortinas se abram.

Atuando também em uma outra vertente do humor, Duca Pantaleão, 42, que sobe ao palco de “cara limpa” e também interpretando personagens cômicos, já está nesta estrada há algum tempo e vem, aos poucos, conquistando cada vez mais espaço. O novo desafio tem sido a participação no programa A Praça é Nossa, do SBT. Atento à composição do cenário e da expressão corporal do personagem Dadinho, do filme “Cidade de Deus”, o humorista criou o Dardinho, ao lado dos comediantes Jefferson Farias, 24, e Raphael Carvalho, 29, que interpretam os malandros Zé Olhinho e Mané Marreco, respectivamente. 

“Nossa  ideia era fazer algo diferente, que fizesse referência ao panorama atual, por isso, o cotidiano das favelas foi muito inspirador. Na época, não imaginávamos que receberíamos uma proposta para atuar na TV, mas no humor tudo pode acontecer. Nós somos a prova de que há espaço para todos nesse ramo”, assegura Duca. 

Parceiro de Duca no programa do SBT, Jefferson, que perdeu a visão aos 12 anos, encontrou no teatro a chance de fazer o que mais gostava: atuar e contar histórias. A paixão surgiu na infância, quando ele passava horas ouvindo piadas antigas contadas pelos parentes mais velhos. Mesmo sem ter certeza sobre seu futuro no mercado do humor, ele quis arriscar. E, pelo visto, a aposta deu mesmo certo. 

“A comédia é um meio de trabalho democrático, qualquer um pode ser comediante. O que gera o riso é o ponto fora da curva e não o padrão estereotipado. Eu não sei se um dia teremos um anão galã de uma novela, mas humoristas já temos. Assim como temos nos palcos comediantes cegos, gordos, cadeirantes, negros, transexuais, carecas, idosos…”, afirma Jefferson.

Apesar do orgulho por terem conquistado uma espaço na TV, os integrantes do quadro “Três Malandros na Laje” não poupam críticas à falta de liberdade de expressão no país.

“O Brasil sempre revelou figuras talentosas que fizeram história no mundo da comédia. Entretanto, estamos  passando por um momento difícil no humor. Desde que veio à tona a filosofia da comédia ‘politicamente correta’, os artistas perderam a autonomia de criação e foram obrigados a ‘equilibrar’ as próprias ideias. Infelizmente, as pessoas esquecem que o povo brasileiro tem o dom de satirizar qualquer tipo de situação corriqueira e levam a sério piadas que foram feitas para divertir e não divergir”, opinam.

Atento às polêmicas que giram em torno do “humor negro”, o comediante e produtor Bruno Nogueira, 25, inseriu em seu texto piadas leves que agradam ao público pela “sacada’’ inteligente em que analisa trechos de músicas ou faz menção a assuntos gerais. Vez ou outra, ele sobe ao palco como o marrento e atrapalhado Walquirio, um bandido mimado que foi criado cheio de zelo pela mãe e diverte a plateia toda vez que está em apuros. Para o humorista, o segredo para ser um bom profissional pode ser definido em apenas três palavras: talento, carisma e humildade.

“O humor é um ramo incerto. Os iniciantes precisam de patrocinadores, uma vez que a venda de ingressos não costuma ser lucrativa para os comediantes anônimos. Por isso, é necessário modéstia para entrar em contato com os apoiadores e pedir uma oportunidade. Além disso, o carisma é o elemento que sustenta o enredo cômico da história narrada. Muitas vezes, a piada não é nem tão boa, mas o ‘jogo de cintura’ e o talento natural do artista erguem o astral do público”, conclui Bruno.

Fonte: http://www.ofluminense.com.br