Padroeiras da Pós-Modernidade

Padroeiras da Pós-Modernidade

Três mulheres místicas medievais, apesar de desconhecidas, são muito atuais: duas se chamam Matilde e uma, Gertrudes. As três viveram no Mosteiro de Helfta, Alemanha, no século XIII. As três buscaram a santidade centradas no Mistério de Deus.

Matilde de Magdeburg levou existência atribulada até chegar ao Mosteiro de Helfta onde passou seus últimos anos. O leitmotiv de sua vida era entregar-se a Deus, divino esposo de sua alma, refúgio nas intempéries. Ela dizia que Deus se debruçava sobre ela e tocava as cordas de sua alma para despertar o amor e restaurar nela a Sua imagem.

Gertrudes de Helfta foi uma das pioneiras da devoção ao Sagrado Coração de Jesus, devoção que ressurgirá com força total a partir do século XVII. Segundo ela, era preciso apenas entrar em si, em seu próprio coração. Quem assim fizesse sentiria a presença afável de Cristo. Recolher-se dentro de si, para estar lá com Cristo: só isso e tudo isso.

Matilde Hackeborn falava em metáforas, belíssimas, aliás. Para onde ela olhasse, encontraria a presença de Deus. Deus falava com ela em tudo o que ouvia. Não apenas Deus falava com ela, mas também através dela. Tudo o que fazia, era com Deus que fazia. Ele lhe deu um coração para que pudesse amar tudo com esse coração divino. Então, ela não precisava tanto se esforçar para amar; era capaz de amar, porque o próprio Deus amava por ela. Se ele lhe deu um coração, era para ela não fazer outra coisa, senão amar.

Nas três místicas de Helfta encontramos a incrível atualidade da busca de um centro onde viver e de onde amar. Isso nos falta hoje: um centro do ser. Somos fragmentados demais! Encontrar a alma no centro de si mesmo talvez possa resumir grande parte do que se chama “santidade”.

O filme “Agnes de Deus”, de 1985, ganhou vários Óscares, inclusive o de melhor atriz para Anne Bancroft. O enredo envolve uma investigação policial sobre um infanticídio ocorrido num convento, para onde uma psiquiatra forense é enviada a fim de analisar a personalidade da jovem freira acusada.

Numa das cenas, a psiquiatra e a madre superiora se encontram num quiosque, em meio à neve. A claridade da neve é sugestiva do diálogo que acontecerá. Num raro momento de descontração, a psiquiatra diz à madre superiora que, por ser muito boa, ela poderia ser santa. A madre retruca que bondade nada tem a ver com santidade e até dá exemplos de santos que não foram nem um pouco “bonzinhos”, segundo o senso comum. Mas o que é então a santidade? – pergunta a psiquiatra. A santidade, diz a freira, é fazer de Deus o centro da vida e não se desgrudar dele, por nada, jamais.

Foi o que as três mulheres de Helfta procuraram: encontrar um centro. Não seria o que falta ao nosso tão desconectado tempo?

Mesmo tão distantes, a impressão é a de que aquelas mulheres habitaram o nosso tempo, as nossas questões e angústias. Elas bem poderiam ser consideradas padroeiras da pós-modernidade – época tão orgulhosa, tão medrosa e esgarçada.

Fonte: http://www.ofluminense.com.br