Tábua de tiro ao Álvaro (Parte 1)

Tábua de tiro ao Álvaro (Parte 1)

É mesmo de estarrecer. A esquerda passou o fim de semana de bode. Minto, não só a esquerda, o povo brasileiro todo está de cara. A justiça resolveu escancarar de vez que, na verdade, só castiga pobre. Não bastasse a “pobre mãe”, Adriana Ancelmo, mulher do Sergio Cabral, receber o indulto humanitário de poder criar seus filhos em casa sem que o mesmo benefício seja dado aos milhares de mães encarceradas, longe de seus filhos, e pelo mesmo motivo: foram aviõezinhos dos seus maridos. Não bastasse o Temer caindo aos pedaços, mas agarrado como uma unha encravada ao poder, Aécio volta a ser senador, como se para ser senador não se precisasse mais ser honesto, não se necessitasse de uma vida sem flagrantes delitos, uma pessoa que não esteja sob tanta suspeita. É de se vomitar. No País, onde tantos ladrões de galinhas, de celulares, de trouxinhas de maconha estão amargando nas cadeias, enquanto o homem da mala de quinhentos mil reais mais conhecido do mundo, pessoa íntima do presidente, autorizada a soturnas visitas noturnas no Palácio, é liberado para cumprir sua pena em casa, coitado. O que será desse homem preso em sua mansão, cheio de empregados a seu dispor, vendo sua TVs, à beira de sua piscina e outros mimos, mas tendo que carregar uma tornozeleira eletrônica? 

Ai, meu Deus, só falando assim pra ver se meu olhar acha um pouco de graça na podridão da República de agora. Pois não bastasse tudo isso, no sábado, recebi um convite amoroso do meu amigo, músico, compositor, talentoso demais, pra que  fosse vê-lo no Beco do Rato, como faço sempre que posso, e em tal onda deliciosa sempre sou convidada a curtir e dar canja de poesias e canções. O evento é mensal, e é uma roda de samba da melhor qualidade, de repertório e de som, produzido pelo meu amado Diogo Rodrigues. Como estava no teatro, bateu no mesmo horário e eu não pude ir ao samba. Perdi. Pois foi neste dia que se deu o ocorrido do vídeo que postei ontem e que está aí nas redes em geral. Um homem trabalhador, honesto, bonito, pai, cidadão longe de qualquer suspeita, um homem de bem, brasileiro que, a duras penas, neste momento de violentos ataques à cultura, neste momento de desmonte, exercia este seu trabalho mensal no Beco do Rato, sofreu brusca e desrespeitosa abordagem policial, na porta deste seu espaço de labor. Inacreditável. Tratado com desrespeito, revistado, humilhado sob os olhares do próprio público! Um achincalhe. Uma porrada. Uma desonradez para um ser cujo valor está no “ser” e não no “ter”. É violento demais. Ofensivo demais. Seu nome é Nêgo Álvaro. Guardem esse nome! Um cara pacífico, que foi aviltado, “pesquisado” grosseiramente, questionado asperamente por policiais que não encontraram nada de ilícito que ele portasse, e que, mesmo assim, numa sequência de erros sem limites, nossa vítima, a que recebe a indevida ação, foi arbitrariamente conduzida à delegacia. Sem dever nada. E tudo sendo filmado, tanto pela polícia, quanto pelos amigos do Álvaro. Isso não é filme não, gente. Isso acontece aqui, todo dia, no nosso chão. 

Lendo ontem a nota de “Escurecimento” publicada por esse querido artista, somada a outro artigo que também li hoje do fabuloso Henrique Sousa sobre as questões que envolvem o homem negro num mundo de domínio branco, me vi envolta na teia de pensamentos do que mais me assola, entre tantos problemas deste País: a dificuldade, o sacrifício, a verdadeira gincana com provas cobertas de cacos de vidro, que significa construir-se como um ser negro, como uma mulher negra, com divindade neste Brasil. Houve uma hora em que um dos policiais, na infeliz abordagem, afirma que o Nêgo Álvaro estava sendo vitimista, quando o mesmo lhe perguntou se estava sendo preso porque era preto. Ora ora, se existe uma coisa que o povo negro não precisa é de se fazer de vítima. Não precisa. Já está posto. Tratava-se justamente da vítima de uma ação que não acontece com um rapaz de 28 anos branco. Não rola.

É muito difícil você ser negro e se constituir numa sociedade com uma boa autoestima num País que não considera um homem como o Nêgo Álvaro um príncipe. Não tem beleza ariana, não serve para esse papel. Para muitos, ele pode ter, só por ser preto, cara de bandido. Esse modelo torto é o que se vende e se impõe às nossas crianças, nos livros de histórias, nos filmes, nas telenovelas. Parece que estou batendo na mesma tecla, mas é preciso abrir os olhos para que a gente não se omita nessa luta que é de todos e que tanto empobrece o País, dá merda no final. A injustiça gera ódio. É perigosa. O que são as cadeias senão grandes senzalas? Enquanto escrevo, a juventude negra está sendo assassinada sem sair no jornal. Sem nome. É só número.   

Tudo isso que digo agora vem cheio de sede da justiça que acho possível nesse momento em que venho trazer aos que me leem esclarecimentos a partir de uma realidade que a maioria dos meus amigos brancos não vive. São notícias de um inferno, do que poderíamos chamar de porões da cidadania. Nos trabalhos que passo e por onde ando, inclusive dentro das instituições socioeducativas, farejo tantos Djavans, Seus Jorges, Emicidas, Lázaros Ramos, Camilinhas Pitangas, Taísinhas Araújos, Miltons Nascimentos, Caetanos e Gils, todos anônimos, sem falar de bailarinas, tenistas, golfistas, pianistas, maestros, artistas plásticos, grandes desenhistas que muitas vezes não chegam a conhecer seus dons porque não têm as mesmas oportunidades. Enquanto não juntarmos isso, enquanto não diminuirmos a distância dessa desigualdade, nosso processo de paz ficará adiado, creiam-me. 

Fonte: http://www.ofluminense.com.br